domingo, 8 de março de 2009

A injustiça com Snake-Eyes

E aí, quem se lembra dos Comandos em Ação? Os famosos bonecos que surgiram na década de 80 aqui no Brasil marcaram época juntamente com a Barbie, o Playmobil e o Lego, e até hoje eles continuam aí: novos itens vem sendo lançados anualmente, inclusive uma série comemorativa de 25 anos com bonecos incrivelmente mais realistas e articulados, sem falar no filme com atores de carne e osso que está para sair e eu certamente vou assistir. Inaugurando a “Sessão Nostalgia” do Texugo Maluco, venho aqui retratar uma das maiores sacanagens e injustiças que a Estrela, fornecedora dos Comandos em Ação aqui no Brasil, fez com um dos mais incríveis e queridos personagens da série, o Snake-Eyes.

Me lembro até hoje do surgimento dos Comandos aqui no Brasil, onde tivemos a sorte de acompanhar o início da série de brinquedos. Os primeiros bonecos eram os mais simples, fora a agente secreta Scarlett (chamada aqui de Atena...), todos os Comandos vinham com suas vestimentas verdes e diversos armamentos, como rifles, morteiros, bazucas e até armas laser. E não adiantava nada ter o exército completo se não tivessem os bandidos para serem combatidos, da organização Cobra. Nos primóridos, não haviam muitos tipos de inimigos, originalmente havia apenas o Oficial Cobra com sua roupa azul escura e a Infantaria Cobra, de azul claro – o sádico Comandante Cobra só viria a ser lançado no Brasil alguns anos depois, em sua versão de armadura. Mas havia aqui também uma tropa de infantaria, com ar sombrio e todo de negro, chamado Cobra Invasor da foto, extraída do site YoJoe (aliás uma excelente referência para todos os comandos já feitos no mundo, recomendo).

Agora faça como eu, volte alguns anos no tempo e se lembre das suas brincadeiras com os Comandos em Ação. Estou me recordando de algumas delas, e me lembro da minha pequena porém terrível tropa de Cobras, com um oficial que fazia o papel de comandante, um soldado, o Cobra de Aço que para mim era tipo um cyborg, dois invasores e também o original Cobrão, que era da cintura para baixo um Cobra Invasor e da cintura para cima um oficial, montado a partir de restos dos dois bonecos que certa vez achei dentro de uma caixa de estalinhos amarela com a cara de um índio no playground de casa (caramba, voltei uns 20 anos no passado agora!). Lembre-se bem do momento onde um de seus comandos, rechaçando o ataque dos Cobras, atirasse contra o Cobra Invasor escondido no alto da estante ou atrás da planta do jardim. Lembrou? E o que você me diria de que por culpa da Estrela na verdade o sujeito de preto não era apenas mais um terrorista abatido, mas sim uma vítima de fogo amigo?

Isso mesmo, imagina só a minha decepção ao saber, alguns muitos anos depois, que aquele que era chamado de Cobra Invasor era na verdade o Snake-Eyes, o valente soldado mudo que viria a se tornar ninja alguns anos mais tarde, um dos principais heróis da série. Particularmente, eu só vim a descobrir esse fato muito recentemente, depois de pesquisar na Internet pelos Comandos em Ação e vi em um site essa informação. Fiquei pasmo, por anos eu via aquele boneco preto com uma submetralhadora com desprezo, pois ele era um dos bandidos, quando no fundo ele era um soldado do bem, um grande guerreiro da justiça e liberdade. E o pior era que, por ser visto como infantaria, nas minhs brincadeiras ele sempre era daqueles que viravam “estatística” de guerra. Me senti sujo, envergonhado e incapaz de olhar nos olhos de plástico deste boneco outra vez...

Mas por que a Estrela, responsável por boa parte de meus sonhos de criança e jogos divertidos como Explosão e Cara a Cara, havia criado tamanha mentira? Será que era tão difícil assim manter os papéis originais e deixar o velho e bom Snake-Eyes lutar do lado dos mocinhos? Será que ela não fazia idéia do erro que fazia ao estampar na cartela de um dos mais famosos personagens dos Comandos em Ação aquele carimbo de “Cobra – Inimigo”?

E o pior é que a Estrela acabou repetindo o erro: alguns anos mais tarde, já na época dos braços que giravam, foi lançado aqui no Brasil o Cobra Comandante Negro, que uma vez mais era o grande Snake-Eyes, agora em sua segunda versão, que vinha com uma espada e o cachorro branco. Bom, pelo menos ele havia subido um pouco mais na hierarquia militar, deixando de ser um mero soldado de infantaria. Dessa vez eu havia percebido em minha infância a mancada da Estrela, pois nessa época já passava o desenho dos Comandos em Ação e tinha o álbum de figurinhas, que retratavam o Snake-Eyes como um dos mocinhos. Mas o Cobra Invasor, que na verdade era a mesma pessoa, continuava como um dos bandidos, muito provavelmente sendo enfrentado pelo próprio Snake-Eyes...

Nunca entendi o porquê da Estrela ter mudado duas vezes a definição deste personagem. Tudo bem que os nomes de muitos Comandos foram mudados aqui no Brasil (lembram-se da série clássica com Gládion, Elétron, Furion?), e alguns bonecos originais foram criados aqui unindo partes de outros bonecos (como o Cobra de Aço e os soldados da primeira Força Naja, exclusivamente brasileiros), mas tornar um mocinho bandido foi a gota d’água. Seria como dizer que o B.A. do Esquadrão Classe A era um terrorista ou que o Rambo era um bandido. Sacanagem com o Snake-Eyes...

Acredito que a razão que levou a essa troca era o próprio aspecto sombrio de Snake-Eyes: afinal, como que um cara vestido todo de preto poderia ser um dos mocinhos? Como era a época de vilões vestidos todos de preto como Darth Vader e o Capitão Nascimento ainda não havia surgido, acho que a Estrela achou que poderia ser um mau exemplo para as crianças aquele cara vestido todo de preto como um herói. Pessoalmente, uma discriminação cromatológica sem tamanho. Até porque existiam na época tantos outros personagens de trajes negros, como Zorro, Mandrake e Batman. Por que o Snake Eyes não tinha o direito de se vestir só de preto, se haviam tantos outros antes dele seguindo a mesma tendência de moda?

Termino aqui com o meu humilde pedido de perdão a um verdadeiro herói, e incentivo todos que assim como eu foram ludibriados por uma fabricante de brinquedos: desculpa, Snake-Eyes!

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