sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O culto da gravata

O escritório da minha empresa fica no centro do Rio, e é comum no início da manhã, na hora do almoço e no final da tarde ver uma multidão de sujeitos andando pelas ruas e nos ônibus trajando o clássico conjunto terno e gravata. E isso independente do tempo, pode estar fazendo um daqueles dias quentes e abafados de verão e todos eles suando debaixo de seus ternos. Felizmente para mim, na empresa onde trabalho não existe um código de vestimenta assim tão rigoroso, mas não deixo de pensar sobre a razão que leva a muitas empresas obrigarem os funcionários a se vestirem assim, ou mesmo as pessoas por iniciativa própria escolherem tais roupas sociais.

Pessoalmente, eu vejo a roupa como uma simples necessidade cotidiana da sociedade. Afinal, pensem comigo, seria bem estranho e desagradável se todos andassem nus por aí, seria uma nojeira ver os homens andando por aí com os troços pendurados, sem falar em mulheres fora de forma sob a ação impetuosa da gravidade - e antes de acharem que eu não gostaria de ver as moças mais gatas andando por aí como vieram ao mundo, acho que no início seria interessante, mas logo perderia a graça, acabaria com a fantasia de ver uma mulher bonita passando na rua e despí-las com os olhos... Brincadeira, daqui a pouco vou receber uma tijolada na cabeça da mulherada pelo comentário chauvinista acima.

Bem, falando sério, a roupa é algo cotidiano, e vejo que ela deve ser o mais confortável possível, principalmente quando se fala de passar oito horas ou mais no trabalho. Nada melhor que uma calça jeans ou um par de tênis para enfrentar o dia-a-dia corrido. Mas existem muitas pessoas que adotam a clássica postura de ir arrumados para o trabalho, usando trajes sociais mesmo quando este não impõe um modelo de vestimenta a ser seguido. Porém arrumar-se para o trabalho normalmente implica em usar peças de roupa que são incômodas e nem um pouco confortáveis, como um terno totalmente inadequado para o nosso clima tropical, um sapato de salto alto que provoca dores nos pés ou uma gravata apertando o pescoço. Aliás, nunca entendi a função da gravata, além de ser um meio da pessoa ser facilmente enforcada...


Eu pessoalmente acho que tal postura é ridícula, como diz o ditado "o hábito não faz o monge". Afinal de contas, será que a maneira de se vestir deve ser usada como forma de qualificar o funcionário? Será que eu seria um profissional inferior a outro apenas pelo fato dele usar terno e gravata enquanto eu uso jeans e camiseta? Para a maioria das pessoas, muitas delas infelizmente trabalhando nos setores de Recursos Humanos das empresas ou escrevendo livros sobre etiqueta, a forma de se vestir é definida sim como um critério de qualidade, usam inclusive outro dizer popular (que eu particularmente não acredito muito) que fala que "a primeira impressão é a que fica". Uma tolice, pois forjar uma aparência elegante com um terno alugado ou um vestido emprestado quando não se é qualificado é algo muito simples de fazer. Além disso, grandes injustiças podem ser cometidas, pois o fato da pessoa se vestir de uma maneira menos formal não a torna menos qualificada.

Para se ter uma idéia desse meu raciocínio, permita-me contar uma historinha verídica. Certa vez estive em um congresso, e fui em uma das sessões para assistir alguns trabalhos. Chegando cedo na sala pude presenciar os dois primeiros apresentadores lá na frente, com pen-drives nas mãos para colocar no computador da sala suas apresentações. Um deles era um sujeito baixinho, e que estava todo arrumado como um lorde, com um terno impecável, gravata combinando e sapatos lustrados, todo de acordo com as regras de etiqueta e vestimenta. O outro, por sua vez, estava com um visual mais descontraído, com uma camiseta lisa para fora da calça jeans, esta que já demonstrava um bom uso, e para fechar um par de botas de caminhada. Pergunto: qual deles era o melhor apresentador?

Se a pergunta fosse respondida por um estilista ou formando de uma faculdade de moda, certamente diriam que o primeiro cara, o engravatado, era o melhor apresentador. E você, o que diria? Façam suas apostas...

Continuando com a minha narrativa, o primeiro a apresentar foi o cara de terno e gravata, e foi algo sofrível de assistir: sua apresentação foi enjoativa, ele não fez nada além de simplesmente ler os slides, sem olhar para a platéia, com uma voz tremida e assustada. Ficava evidente nas frases que ele tinha decorado um longo texto e o estava reproduzindo na íntegra. No final, na etapa de perguntas, ele meio que se esquivava, replicava os questionamentos sem respondê-los. Uma apresentação de merda...

Por sua vez, o cidadão de estilo "inadequado" fez uma apresentação exemplar, extremamente natural, demonstrando que entendia do assunto. Praticamente sem olhar para seus próprios slides, ele conseguiu prender a atenção do público, e ainda soube responder bem todas as perguntas, saindo de lá bastante aplaudido. Resumindo, a roupa não teve nada a ver com a performance de ambos os apresentadores. O cara que estava todo arrumado segundo os padrões de etiqueta fez uma apresentação de merda, enquanto que aquele que não se preocupou com a roupa mostrou-se um apresentador competente e com total domínio do assunto.

Mas aí remetemos mais uma vez ao conceito levantado pelos defensores dos padrões de vestimenta, que a primeira impressão é a que fica, e nessa mesma apresentação isso se fez notar, em especial quando o segundo cara (o "largado") foi mostrar seu trabalho, era visível como haviam pessoas comentando sobre o fato de que ele estava mal-vestido, de que não estava levando o congresso à sério. Ou seja, para essa maioria, estar bem vestido é sinônimo de competência e comprometimento. Bobagem! Você por acaso vê competência, idoneidade e seriedade nesse sujeito aí de baixo?


Ou nesse?


Nem eu... E olha que os dois estão de terno e gravata...

Entretanto, cada vez mais concluo que a sociedade está ainda mais superficial, e certos aspectos mais exteriores e visíveis se tornaram muito mais importantes que aqueles de maior importância, como a personalidade, profissionalismo e competência. E vejo que colocar a roupa à frente daquele que a veste ainda acaba tendo um efeito negativo sobre a pessoa, principalmente quando esta é fraca de espírito e insegura de sua qualificação profissional. Há aquelas pessoas que ao vestir a roupa de trabalho se sentem dentro de uma armadura, que as protegerá de qualquer dúvida que os outros possam ter de sua competência; e também tem aqueles arrogantes que vêem na roupa social de trabalho uma forma de mostrar para o mundo o que faz, se exibir como um grande e exemplar funcionário, quando muitas vezes não é na prática. Este último comportamento eu particularmente sempre observei em muitos advogados, que vestindo seus ternos e gravatas se sentem no direito de olhar de cima para nós, meros cidadãos que não cursaram Direito... E nem precisa ser formado não: já cansei se ver moleques que mal entraram na faculdade se vestindo de terno e gravata, com a mesma postura arrogante de quem acha que pode mijar contra o vento sem se molhar...

Claro, não estou querendo descer até lá embaixo, não estou dizendo que é para ir trabalhar de short, camisa regata e chinelo. É necessário um pouquinho só de bom senso para entender o mínimo de roupa necessária para ir em determinado lugar. O meu ponto é que a roupa não tem nenhum tipo de influência sobre a pessoa que a veste, colocar uma roupa mais formal não torna o indivíduo mais inteligente, qualificado ou confiável.

Foi como certa vez, um casamento no qual eu fui. Pela postagem, você já deve estar vendo como odeio gravata, e realmente nem sequer me preocupei com essa peça de indumentária. Calça social, um sapato social simples (nada daqueles desconfortáveis sapatos engraxados), uma camisa social simples e mais um blazer, e só. Nada de gravata. Aí as pessoas olhando, alguns colegas vindo e me dizendo "puxa, você tinha que ter colocado uma gravata...". Pra quê? Onde tá escrito que é obrigatório colocar uma gravata? Estava ali, vestido de maneira adequada, nada de ofensivo, pombas! Que mal faz eu estar ali sem gravata? Daqui a pouco vão colocar um estilista na entrada, que vai barrar quem não se enquadrar perfeitamente nos padrões do traje exigido. Pombas, achei que em um casamento as pessoas se preocupassem em observar somente o vestido da noiva...


Vou te dizer... Os russos são muitas vezes sem noção, mas tem horas que acertam. Continuando...

Bom, só sei que de lá pra cá não tenho sido convidado muito para casamentos... Por um lado é bom, já estava ficando enjoado de ver todos meus amigos se casando e eu ainda solteiro...

Aliás, nesses casamentos eu sempre vejo aquelas maldades que fazem com crianças. Botam o molequinho de menos de 4 anos de terninho, sapatinho social e gravatinha! Putzgrila, que coisa bizarra, parece que querem condicionar a criança desde cedo a usar esse tipo de roupa, maldade fazer isso com uma criança. Tão ridículo, parece mais um boneco de ventríloquo.

Bom, aí nessas horas aparecem os estilistas e conhecidos de moda, que vem me falar dos tipos de trajes. Aí vem aquela baboseira de traje esporte, traje de passeio, passeio completo... Cara, não faço a idéia do que é cada um, pra mim traje esporte é roupa de praticar esporte. Nunca me liguei nessas coisas, tenho uma amiga que certa vez ficou quase uma hora me dando um sermão em um desses casamentos pois eu não estava com o traje de passeio completo, que eu era obrigado a usar terno e gravata...

O mais engraçado era ver todos os homens lá nesse casamento, suando que nem porcos no chiqueiro debaixo do Sol e dentro de seus ternos alinhados, alguns deles ficando com aquelas características poças de suor nas costas, enquanto eu estava lá numa boa, só com uma camisa social de manga curta. Realmente, deve ser muito elegante o sujeito estar lá com um terno suando em bicas. Parece que é mais importante seguir o padrão, por mais estúpido que seja, do que adotar algo mais confortável e adequado para o clima.

Me lembro até com certos detalhes a bronca que essa amiga me deu, explicando todos os trajes. Me marcou pois teve uma hora que ela falou que eu nem estava com o traje de passeio sim correto. Passeio é quando o terno e gravata são dispensados, e pode-se usar só uma calça e camisa social, mas ela chamou a minha atenção pois não podia usar camisa social de manga curta, teria que ser uma camisa de manga comprida, que podia ser dobrada.

Na boa, cara... Uma das coisas mais estúpidas que eu já vi é essa de camisa social de manga comprida dobrada. Puta que pariu! Pra ficar com a manga dobrada, por que não usar logo uma camisa de manga curta? Sério, é tanta estupidez como comprar uma calça e depois cortar as pernas pra fazer uma bermuda!

Eu sinceramente acho ridículo essa obrigatoriedade, essas regras de vestimenta, deve ser coisa inventada pelas lojas de roupas, porque sem isso ninguém nunca ia usar terno. Tudo bem, eu sei que a maioria das pessoas não tem bom senso, mas eu tenho certeza de que ninguém vai aparecer em um casamento vestindo um jeans furado e uma camiseta "mamãe sou forte". Não tem nada demais em simplificar um pouco, não vejo isso como uma coisa ofensiva, ou atitude rebelde, como essa mesma amiga me disse. Ofensivo seria por exemplo usar uma gravata dessas...


Como saideira, deixa eu contar um outro caso que aconteceu comigo. Certa vez fui fazer uma dinâmica de grupo para uma vaga em uma empresa. Na hora de me vestir, arrumei uma camisa social de manga curta lisa, uma calça de brim e sapatos esporte-sociais (aqueles marrons, mais normais e confortáveis, nada daqueles Vulcabras pretos insuportáveis). Cheguei lá no local, e vi vários caras, na minha opinião, exageradamente vestidos: vários de terno e gravata, outros com aquelas camisas sociais caras de manga longa, sapatos chiques e tudo mais. Quando a entrevistadora, uma mulher feia que nem um pé com ferida que devia ser duma dessas firmas de RH, nos chamou, ela passou os olhos em todos e logo separou eu e outros do grupo, dizendo com o nariz empinado:


"Vocês podem ir, estão dispensados do processo seletivo."

Foi uma surpresa geral. Claro, as pessoas ficaram sem entender, ficou aquele burburinho... E eu, que estava bem na frente, perguntei para a mulher baseado no quê ela estava nos dispensando. Então, ela me olhou com aquele ar de superioridade arrogante, que só tipos metidos à besta tem, e disse algo mais ou menos assim:


"Ora, pela forma que vocês estão vestidos, fica evidente que vocês não tem qualificação suficiente para esse cargo... É melhor economizarmos o tempo de vocês, e principalmente o meu..."

Ah, vou te dizer... Poucas vezes na minha vida eu senti tanta raiva. Além disso, jamais levantei ou levantarei a mão para uma mulher. Mas que me deu uma vontade de dar uma porrada naquela mulherzinha arrogante, isso deu. Nunca vi essa, de chamar um monte de gente pra uma dinâmica e depois fazer uma filtragem com base no que as pessoas estão vestindo. Muitos reclamaram, falaram que era injusto, que era preconceito, que não competência não se mede pela roupa que se veste, algumas meninas em lágrimas e se me lembro bem, ainda houve um "vai à merda, não quero essa bosta de emprego mesmo". O pior é que a mulher ficou ali, parada, olhando para a gente. Parecia querer ver a nossa reação, ou ter a certeza de que iríamos ir embora mesmo.

Pro azar dela, naquela época eu não era mais o bobalhão da escola, que aceitava tudo sem falar. Não iria levar desaforo para casa, olhei bem na cara da mocoronga e falei, algo mais ou menos assim (faz muito tempo, não lembro das palavras exatas, pôrra!)


"Ótimo, melhor assim mesmo! Não vou perder tempo com uma empresa que não tem interesse em contratar pessoas incompetentes... Afinal de contas, se contratam uma empresinha de RH muquirana como essa, não devem querer mesmo lidar com gente inteligente e competente..."

Ah, mas a mulher ficou puta da vida! Dava pra ver nos olhos dela, a expressão de raiva, mas que ela se viu obrigada a conter, para não perder a razão. Virei as costas e fui pra casa, e nunca mais fui fazer uma dinâmica para essa empresa.

Como disse, terno e gravata pra mim não vale pôrra nenhuma, nunca usei e farei o possível para nunca usar. É coisa destinada para coisas como político, pastor de igreja evangélica, segurança de boate e advogado, e longe de mim querer ser confundido com um deles...

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